A fama do português cruza gerações e zonas geográficas. A sua postura faz mossa em todos: fomenta profunda admiração ou acicata ódios. A sua personalidade frontal e propícia a controvérsia é o que o distingue dos outros treinadores que conquistam títulos prestigiantes mas não nos oferecem... emoções.
O presente
No início da época 2007/2008, o Special One abandonou o comando técnico do Chelsea. O despedimento (se assim se pode chamar) suscitou um (genial) comentário de Carlo Ancelotti. O então e actual treinador do AC Milan, comparou Mourinho a «uma mina que qualquer um se arrisca a pisar»... Roberto Mancini foi quem acabou amputado.

José Mourinho foi o centro das atenções no momento em que aterrou em Milão. Cada conferência de imprensa que dá, opinando sobre a partida mais banal à mais escaldante, torna-se um momento televisivo de utilidade pública. Se existisse um talk-show, tipo compilação dos encontros do português com a imprensa internacional, eu estaria sempre colado à TV. O discurso sem papas na língua; a forma como soube aprender a ser autocrítico; o facto de, sem embaraço, destacar individualmente os seus jogadores, para o bem e para o mal; a capacidade de, em simultâneo, demonstrar respeito e desafiar os seus adversários continua a fascinar meio mundo. E a outra metade não consegue ficar indiferente.
No futebol, o Inter pode fazer melhor e está obrigado a mostrar mais. No entanto, todos os objectivos se mantêm intocáveis e a liderança da Série A aparenta ser firme. Mou foi testando sistemas, foi testando jogadores e foi sendo criticado por não se ver, de imediato, um grande Inter, mas lá vai levando a água ao seu moinho e as críticas vão-se transformando em elogios.

Em Itália, não só em Milão, espera-se muito do nosso Mourinho. Por estranho que possa parecer, este vai, progressivamente, assumindo-se como o salvador do calcio. O futebol italiano tem sido vítima do desinteresse generalizado, perdendo claramente protagonismo para os campeonatos inglês e espanhol. Os próprios tiffosi não preenchem os estádios. Mas o português redefiniu os tempos de visibilidade do calcio na comunicação social global, ele próprio faz questão de passar essa mensagem dentro do país – ouçam o que eu digo, façam o que eu mando e o futebol italiano vai voltar a ter o protagonismo dos anos 80 – os opinion makers parecem estar a reagir nesse sentido. José Mourinho é, de facto, um indivíduo fascinante. E peço-vos perdão porque não consigo esconder o meu próprio fascínio.
O futuro
Que futuro para José Mourinho? Para já, dois terços de época no Inter. Depois, provavelmente mais uma ou duas temporadas a orientar os milaneses. E depois? Depois... Há poucos clubes – não posso dizer do Mundo – da Europa que aspiram a contar com os serviços do técnico português. Arriscaria uma dúzia. Mais tarde, seguramente com muitos mais títulos no seu currículo especial, chegará a vez da Selecção. Ele já manifestou esse desejo, mais lá para o fim da carreira, a pré-reforma. Porque ser seleccionador é uma quase morte: acaba a rotina diária e passa-se o tempo a colocar cruzinhas no calendário à espera do próximo estágio. De qualquer forma, não vai faltar muito. O técnico já manifestou a vontade de se reformar cedo, sendo assim, a pré-reforma (Selecção) não andará longe.
Mas a (minha) curiosidade não termina aqui. O que fará José quando decidir reformar-se de treinador de futebol? Ele já respondeu que estará o mais longe possível do desporto-rei. Mas não o imagino dedicado exclusivamente à família e aos amigos. Quem viu entrevistas sobre o seu dia-a-dia reconhece, sem dificuldade, os sintomas evidentes de um trabalhador compulsivo... Seja qual for o seu futuro, por certo que discreto não será.